Eminências Reverendíssimas, amados irmãos no sacerdócio, veneráveis membros da Cúria e de todo o clero:

“Combati o bom combate, terminou a minha carreira, guardei a fé. (2 Tm 4, 7)"

Estas palavras do Apóstolo das Gentes ecoam com uma força singular e solene nesta Basílica, enquanto nos reunimos em torno do corpo mortal do nosso amado Santo Padre, o Papa Pio IV. Como Camerlengo da Santa Igreja, cabe-me o doloroso, mas honroso dever de guiar este momento de transição e oração diante de todos vós, que fostes as testemunhas e os colaboradores de seu pontificado.

O Pastor e a Condução do Rebanho

Olhar para este caixão é contemplar o fim de um capítulo de profunda dedicação à Barca de Pedro. O Papa Pio IV não assumiu o sólio pontifício em tempos de calmaria; ele foi chamado a governar em meio a tempestades, desafios e discernimentos complexos que exigiram dele a máxima prudência evangélica.

A Fragilidade Humana e a Misericórdia Divina

No entanto, diante deste altar, despidos das insígnias do poder, lembramos que o Papa não se apresenta diante de Deus como um monarca, mas como um servo. O anel do pescador foi quebrado; o poder das chaves retorna, temporariamente, Àquele que o instituiu. Pio IV agora está diante do Justo Juiz, despido da tiara papal, vestindo apenas a sua humanidade e as suas obras.

Ele conhecia o peso esmagador de carregar a cruz de toda a Igreja Universal. Por isso, nossa oração hoje não é de exaltação terrena, mas de intercessão humilde. Pedimos que o Senhor, em sua infinita misericórdia, perdoe as suas fraquezas humanas, purifique as suas faltas e acolha a sua entrega total ao Reino dos Céus.

O Apelo ao Clero: A Firmeza na Sede Vacante

Irmãos, este momento de Sede Vacante que hoje se inicia não deve ser um tempo de temor ou de divisão, mas de profunda fidelidade. O Papa Pio IV nos deixa um legado de ordem, disciplina e amor à Igreja. Cabe a cada um de nós, membros do clero, manter as fileiras unidas e proteger o rebanho até que o Espírito Santo nos aponte um novo sucessor.

"A liderança passa, mas a Igreja permanece. Que a nossa unidade seja o maior monumento à memória do pontífice que hoje se despede de nós."

O Descanso Eterno

Entregamos, pois, o Papa Pio IV às mãos da Virgem Maria, Mãe da Igreja, e de São Pedro, o primeiro dos pastores.

Que o Cristo, o Príncipe dos Pastores, a quem ele serviu na terra, lhe diga hoje no banquete celestial: “Muito bem, servo bom e fiel; entra na alegria do teu Senhor.”

Requiem aeternam dona ei, Domine, et lux perpetua luceat ei. Amém.


+ Dom Pietro Maldini Garnacho
Cardeal Carmelengo